| A Displasia
Coxofemoral
Displasia Coxofemural
por Dra.Flávia Mª. Maruch Hallack e Dr. Guilherme Luiz O. de
Noronha.
A Displasia Coxofemoral (DCF) é uma patologia que se caracteriza
por uma má formação da cabeça do fêmur
e acetábulo devido a uma instabilidade presente na região,
levando ao aparecimento de alterações osteoartróticas.
Sua primeira descrição em cães foi em 1935 e também
já foi diagnosticada em outras espécies como gatos, bovinos,
eqüinos, animais silvestres e até o homem. Acomete todas as
raças, sendo mais comum nas raças de médio e grande
porte, que apresentam rápido crescimento como Pastor Alemão,
Fila Brasileiro, Rottweiller, São Bernardo, Labrador entre outras,
não apresentando predileção por sexo. Os cães
displásicos nascem com articulações coxofemorais normais,
e ocorrem subseqüentemente progressivas alterações estruturais
que incluem relaxamento articular, inchaço, desgaste e ruptura de
ligamentos, arrasamento da cavidade articular, subluxação
da cabeça do fêmur, erosão da cartilagem articular,
ossificação subcondral, remodelação da borda
acetabular e da cabeça do fêmur, e produção
de osteófitos na região periarticular.
Etiologia
Acredita-se que a DCF possui etiologia multifatorial, sendo os seguintes
fatores relacionandos com o desenvolvimento da doença: Genético:
A DCF possui herança poligênica quantitativa (aproximadamente
18 genes) de herdabilidade média a alta, ou seja quanto maior o
grau de parentesco com animais displásicos maior é a probabilidade
da prole ser displásica; Nutricional: Dietas com altos índices
de energia, proteína e cálcio proporcionam um rápido
crescimento e um ganho de peso excessivo (aumenta o peso sobre a articulação)
induzindo ao aparecimento da DCF; Massa Muscular Pélvica: Animais
com menores proporções de massa muscular pélvica possuem
maiores chances de desenvolverem a DCF. Segundo Riser e Shirer os animais
que apresentarem índice de massa muscular pélvica [(peso
da musculatura pélvica/peso corporal) x 100] menor que 9 irão
desenvolver DCF; Alterações Biomecânicas: Forças
musculares que atuam na articulação coxofemoral ajudam a
manter a cabeça do fêmur encaixada com o acetábulo.
Redução, eliminação , ou exaustão das
forças musculares levam a uma instabilidade na articulação
e subluxação. O rápido crescimento do esqueleto em
disparidade com o crescimento muscular também induz o aparecimento
da DCF; Outros fatores como hipotrofia das miofibras do músculo
pectínio, alterações que aumentam o volume do líquido
sinovial, alterações hormonais (hiperestrogenismo materno),
insuficiente síntese proteica, deficiência de vitamina C,
excesso de exercícios na fase de crescimento e permanência
do animal em pisos lisos que levam a uma instabilidade articular também
estão relacionados com o aparecimento da DCF.
Deve-se ressaltar que a genética atua como causa principal enquanto
os demais fatores podem agravar uma predisposição já
existente geneticamente.
Diagnóstico
O diagnóstico da DCF é exclusivamente radiológico.
O diagnóstico a partir dos sinais clínicos não é
suficiente, pois nem sempre são compatíveis com os achados
radiológicos. Portanto não se deve dar um atestado de não
displásico apenas pela ausência de sintomas, todos os animais
devem ser radiografados. Para ser radiografado o animal deve ser sedado
para facilitar o posicionamento adequado. O animal deve ser colocado em
decúbito dorsal com os membros posteriores bem estendidos, paralelos
entre si e ligeiramente rotacionados internamente. A pelve deve estar simétrica
e a coluna vertebral paralela aos membros. Existem diferentes técnicas
para avaliação da radiografia, as mais usadas são
as desenvolvidas pela Orthopedic Foundation for Animals-EUA(OFA), pela
Universidade da Pensilvânia-EUA (PennHip), pelo British Veterinarian
Association- Inglaterra (BVA) e o Método de Norberg (HD). Para o
atestado definitivo os animais devem possuir idade superior a 12 meses
pelo BVA e pelo Método de Norberg, e idade superior a 24 meses pela
OFA. As fêmeas devem ser radiografadas com pelo menos 30 dias antes
ou após o cio, pois a influência hormonal pode causar uma
falsa impressão de subluxação.
v
As estruturas anatômicas a serem analisadas na avaliação
radiográfica são: 1-Borda acetabular craniolateral; 2- Margem
acetabular cranial; 3- Cabeça do fêmur; 4- Fóvea; 5-
Espaço articular; 6- Borda acetabular caudal; 7- Margem acetabular
dorsal; 8- Junção cabeça-colo do fêmur; 9- Fossa
trocantérica.
Na
avaliação radiográfica o animal pode ser incluído
nas seguintes categorias de acordo com as alterações presentes:
HD- (equivale
aos OFA excellent e good): Animal ausente de DCF. A cabeça do fêmur
e acetábulo são congruentes, sendo o espaço articular
fechado e regular. Pelo Método de Norberg apresenta apresenta ângulo
de aproximadamente 105º (somente como referência);
HD+/-
(equivale aos OFA fair e boderline): Animal suspeito de apresentar DCF.
A cabeça e o acetábulo apresentam ligeira incongruência
respeitando os limites radiográficos. Pelo Método de Norberg
apresenta apresenta ângulo de aproximadamente 105º (somente
como referência);
HD+
(equivale ao OFA mild): Animal com DCF leve, ainda é permitido o
acasalamento. A cabeça e acetábulo incongruentes (mínimo
de subluxação), ligeiro arrasamento da cabeça do fêmur.
Os sinais de alteração osteoartróticas são
mínimos ou ausentes. Pelo método de Norberg o ângulo
é aproximadamente 100º;
HD++
(equivale ao OFA moderate): Animal com DCF média. Achatamento da
cabeça do fêmur, arrasamento do acetábulo, ossificação
subcondral, perda do espaço articular, formação de
osteófitos, alterações no colo do fêmur, presença
de subluxação. Pelo método de Norberg, apresenta o
ângulo maior que 90º;
HD+++ (equivale
ao OFA severe): Animal com DCF grave. Presença de luxação,
arrasamento severo da cabeça do fêmur e do acetábulo
(quase plano), presença de osteófitos em vários pontos,
ossificação subcondral, alterações no colo
do fêmur. Pelo método de Norberg, apresenta o ângulo
menor que 90º;
Sintomas e
tratamento
Os sinais clínicos geralmente começam aos 5-8 meses de idade,
sendo que em alguns casos não aparecem até os 36 meses de
idade. Os sintomas são extremamente variáveis, sendo que
os animais podem apresentar dificuldade ao andar, levantar, correr e subir
escadas; dorso arqueado, andar cambaleante e claudicação,
abrasão das unhas dos membros posteriores; diminuição
da amplitude de movimentação dos membros posteriores; atrofia
da musculatura dos membros posteriores; sensibilidade local, sendo está
exacerbada após exercícios. É importante lembrar que
nem sempre existe uma relação entre os sintomas e o grau
de displasia que o animal apresenta, isto é animais com displasia
severa podem correr, pular e brincar enquanto que animais com displasia
leve podem apresentar uma forte claudicação.
Não existe uma cura para a DCF, os tratamentos visam minimizar a
dor, combater os sintomas dando uma melhor condição de vida
para o animal. Nos casos mais leves recomenda-se a diminuição
do peso do animal para reduzir o estresse mecânico sobre a articulação,
e fisioterapia (natação) para prevenir ou aliviar o processo
inflamatório presente. Nos casos mais graves podem ser usados antinflamatórios
não esteróides para o controle da dor, como também
podem ser associados precursores de proteoglicanos que são um importante
constituinte da cartilagem hialina que forma a articulação.
Os tratamentos cirúrgicos incluem osteotomia tripla pélvica
(TPO), remoção completa da cabeça e do colo do fêmur,
artroplastia completa da articulação, entre outros.
Comentário
final
Os filhotes de raças de médio e grande porte devem ser alimentados
com rações específicas para controlar o seu desenvolvimento,
evitando o crescimento rápido e exagerado. Devendo também
ser evitado a obesidade e o excesso de exercício na fase de crescimento.
É importante salientar que devido a sua herança poligênica
quantitativa a DCF pode ser reduzida mas não eliminada desta forma,
mesmo acasalando animais normais pode-se ter filhos displásicos,
porém em menor proporção. Para o controle da DCF os
proprietários e criadores devem ter em mente a importância
de se obter, com veterinários experientes na área de radiodiagnóstico,
o atestado radiológico dos animais a serem acasalados, buscando
diminuir a incidência da DCF no seu plantel.
Bibliografia
consultada
- FLO B. P.
M. Handbook of small animal orthopedics & fracture treatment. WB Saunder
Company, 2ª edition, 1990, p.355-356.
- MORGAN R.V.
Handbook of small animal practice. WB Saunder Company, 2ª edition,
1992, p. 866-868.
- WHITTICK
W. G. Canine orthopedics. Lea & Fediger, 2ª edition, 1990, p.
796-797.
- Site da
Orthopedic Foundation for Animals (www.offa.org)
Figuras
- Site da Orthopedic
Foundation for Animals (www.offa.org)
Dra Flávia
Mª Maruch Hallack e o Dr Guilherme Luiz O. de Noronha são Médicos
Veterinários atuantes na Grande Belo Horizonte, e proprietários
do Canil Noruck Labradors
Publicado
na revista Cães de Fato - ano 5 - número 17. 2000. Publicado
com permissão de De Fato Promoções e Eventos Ltda.
Informações
sobre a displasia
Apesar de todos os
cuidados tomados, não existe nenhuma possibilidade de o criador
garantir que um filhote não venha a possuir a Displasia, o criador
sério faz o controle dos pais e evita cruzamentos que possuam maior
chance de os filhotes nascerem com o problema, mas é bom que se
saiba que um cruzamento com ambos os animais isentos de displasia (HD-)
ainda possui 26% de chances de virem a nascer filhotes displásicos.
Além da genética, os fatores ambientais são muito
importantes no desenvolvimento da doença, portanto, a culpa em várias
ocasiões não é do criador, isso se ele fizer o seu
dever e não cruzar animais com problema.
É Bom saber
também que o animal pode conviver com a Displasia sem apresentar
nenhum sintoma clínico e isso não atrapalha que ele seja
seu companheiro e seu fiel amigo em suas aventuras. Mas este cão
não poderá reproduzir, o que, ao contrário do que
pensam alguns, não causa nenhum mal ao animal.
Assim, recomenda-se
que a Displasia não seja o único critério na hora
de escolher onde adquirir o seu filhote, visite os canis que você
selecionar, pergunte sobre a raça e verifique o conhecimento do
criador. E o mais importante, veja os cães do criador, se são
bem cuidados, sadios, alegres, porque você estará levando
para casa um cão com o qual irá conviver por uns 10 anos. |
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